Com a carta encíclica *Magnifica Humanitas, Sobre a proteção da pessoa humana na era da inteligência artificial*, o Papa Leão XIV oferece à Igreja e ao mundo inteiro um profundo ato de discernimento. Não uma condenação da tecnologia, nem um entusiasmo ingênuo, mas um convite a olhar em profundidade, com os olhos da fé, para a transformação histórica que estamos vivendo.
A encíclica se abre com uma imagem poderosa: a de Babel e de Jerusalém. «A magnífica humanidade criada por Deus se encontra hoje diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade santa, onde Deus e a humanidade habitam juntos.» Não se trata de escolher entre aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas de algo mais radical: escolher entre um uso que desintegra e outro que preserva o humano. Em uma época em que, como escreve o Papa, «nunca antes a humanidade teve tanto poder sobre si mesma», essa responsabilidade torna-se urgente e ineludível.
No cerne do documento está uma certeza que a fé cristã sempre carregou no coração: o ser humano não pode ser reduzido a uma função, a um dado ou a um desempenho. Existe «um nível mais profundo, o mais importante, que consiste na dignidade ontológica», uma dignidade que «pertence a todo ser humano simplesmente pelo fato de existir». Essa dignidade não depende do que se produz ou do quanto se é “útil”: ela precede tudo, porque vem de Deus. “Somente no mistério do Verbo encarnado encontra verdadeira luz o mistério do homem.” A Encarnação não é apenas um dogma teológico: é o critério com o qual ler a história, inclusive a digital.
A encíclica é clara sobre um ponto que muitas vezes esquecemos no fascínio da novidade tecnológica: as inteligências artificiais, por mais sofisticadas que sejam, permanecem alheias à experiência humana. «Elas não vivem uma experiência, não possuem um corpo, não experimentam a alegria e a dor, não conhecem por dentro o que significa amor, trabalho, responsabilidade.» Por isso, não podem assumir uma responsabilidade moral. O limite não é um defeito a ser eliminado: «o ser humano não floresce apesar do limite, mas muitas vezes através do limite.» Na fragilidade e na vulnerabilidade nascem a relação, o cuidado, a abertura ao outro, tudo aquilo que nenhuma máquina pode gerar.
Ao abordar a realidade concreta da vida cotidiana, o Papa identifica três áreas em que se joga a salvaguarda do ser humano: a verdade, o trabalho e a liberdade. A verdade é um bem comum frágil, ameaçado pela difusão de informações manipuladas: «a qualidade da comunicação pública depende diretamente da confiança social», e os filtros técnicos não são suficientes. O trabalho, «via ordinária de participação na vida social», corre o risco de perder seu valor humano quando os trabalhadores «são obrigados a se adaptar à velocidade das máquinas». A liberdade, por fim, na era digital «não é apenas um fato interior: é também uma questão pública», pois as tecnologias podem orientar escolhas e comportamentos de maneira invisível.
A encíclica encerra-se com um horizonte de esperança: a civilização do amor como alternativa concreta à cultura do poder, fundamentada na justiça, na fraternidade e no diálogo. O canto que a inspira é o Magnificat de Maria, do qual deriva o próprio título da encíclica, sinal de uma lógica que subverte o poder e reconhece valor à humildade. O convite final do Papa é claro: ser «construtores de comunhão, não arquitetos de Babel», para que a humanidade não perca a sua magnificência e o mundo possa reconhecer, no coração do homem, o lugar onde Deus deseja habitar.
Para ler o texto integral da encíclica e os materiais de aprofundamento: humandevelopment.va